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Este blog nunca se irá encontrar escrito ao abrigo do (des)Acordo Ortográfico de 1990!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Aniversário e novidades

O blog completou, no passado dia 07 de Fevereiro, 11 anos.
Há algum tempo que pensei como poderia celebrar, até que me lembrei; "Por que não ler os poemas e colocá-los à disposição para que se possam ouvir?".

Assim, peguei no poema mais lido, aqui, o Setembro, juntei uma música de fundo e criei um vídeo para que se pudesse ouvir via youtube!

A partir de hoje, poderá ser o próprio leitor a decidir que poemas se seguirão. Basta que procurem o poema que preferem e, de forma a ganhar mais visualizações, difundir pelos seus contactos nas diversas redes sociais e/ou email. O poema mais lido em Fevereiro, ganhará voz em Março!

Até lá, poderão ir ouvindo o Setembro.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sobre a imperfeição do universo

Não são doze as horas que o sol espreita.
Ou raro é dia em que é tão certeiro
Igual tempo entre o acordar e a deita,
Seja dia claro ou denso nevoeiro.

Nem da lua, as fases contam dias certos
E em decimal se divide a própria hora.
Não há meses com iguais dias, correctos,
Nem no universo perfeição ao que agora

Nos meus olhos perfeita imagem se assume.
A tua irregular figura de quem, imperfeito,
Ao mundo veio exalar orgásmico perfume
Inebriante e de inigualável preceito.

Construído em preciosas pedras de afectos,
Tão maleáveis ao tacto como quem aflora
Os escondidos sentidos em exóticos dialectos
Que só a minha percepção o entende e decora.

Não me digam que é perfeito o universo,
Quando nele tudo se extingue e se cria.
Eu criei na mente a imagem em verso
De nada que na vida, realmente, existiria.

Bruno Torrão

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Encontro marcado

Hás tantas acabei por esquecer,
Depois de tantas ausências repetidas,
Que parte do meu corpo te dá mais prazer,
Onde as minhas mãos te são mais queridas,

Em que lóbulo, esquerdo ou direito,
Suaves passeios preferes que a língua percorra.
Ao que me lembro, definias ser o perfeito
Caminho para a tua masmorra.

Esse estranho nome que davas
À tua discreta cave sem trancas na porta
E onde tantas vezes me levavas
Para fazer da vida uma santidade torta.

Esqueci-me não por te esquecer, acreditas?
Sabemos ambos que nos entretantos,
Por entre datas perdidas e vontades convictas,
Outros corpos foram menos santos

Por entre estas e as tuas mãos.
Nunca seremos de cada um, já sabemos,
E o que perdemos podem nem ser senãos,
Já que cada vez que novamente nos vemos

As preces voltam a ser rezadas com precisão
E sabemos onde nos conhecemos melhor.
Juntamos sempre os corpos com a exactidão
Com que foram feitos no nosso encontro maior.

Bruno Torrão

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Premissa para quem se queixa dos amores

Já pensou vez alguma, alguém,
Quantos amores ficou por dever?
As palavras jamais ditas por quem
Amor sentido julgou crescer

Num peito que se coseu, iludido,
Que de outra parte houvesse, também,
Quem de amores andasse perdido
Sem coragem de o atirar para além

Para o lado que do corpo fica de fora?
Quantos “amo-te” não proferidos
Por não haver sentido na hora
A força catapultar-lhe os sentidos?

E das oportunidades perdidas,
Por amor descabido?
E as ideias pobremente construídas
De que o amor era proibido?

E se fosse o amor que sentimos
Como qualquer outro sentimento
Explicável, como quando rimos
Pela felicidade do momento?

Haveria menos ódios e enganos?
Na premissa da perdição deixo
A quem tiver coragem por estes anos
Estas questões a que me queixo.

Bruno Torrão

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

De que são feitos os sonhos

Os dias são sonhos lançados
Na vida, oportunidades perdidas.
Os escassos momentos de lucidez,
Se os houve, por vezes mascarados,
Foram nada mais que outras vidas
Que fiz sem fazer o que se fez.

São de secas os feitos, nados-mortos,
Frascos encharcados de quase nada.
As outras vidas, imersas e vagas,
Deambulam em invernos tortos
Contra relógios de corda parada,
Inversos, são acendalhas nas fragas.

Somos água corrente putrificada
Com sangue da vida de outrem.
Albufeiras de larvas e de lama.
Nascem cardos nos trilhos da vida,
Assim que choram, quando nascem,
Aqueles que um dia serão chama

E farão arder nas páginas rubras,
Tingidas pela paixão que fazem brotar
Nas horas inertes da madrugada.
Assim te sentas frente a nada e deslumbras
Como quem olha um quadro acabado de pintar
Disposto numa galeria condecorada.

Os sonhos são as horas perdidas, por certo,
Nas camas em que não dormes, sequer.
Descortinados desenhos mentais monocromáticos –
Embora acredite que coloro os meus de afecto
De tão surreais como um qualquer
Desenho de caleidoscópio automático,

Impossíveis de decifrar por oniroscopia,
Ou daqueles afeitos à experiência secular.
Os meus sonhos são murchas flores
Sedentas de uma rara realidade que existia
Apenas para saber como se libertar
Das regras que regem as próprias dores.

Bruno Torrão

sábado, 7 de outubro de 2017

Elegia à Despedida

Não me afectam as despedidas
Por maiores tristezas que tragam.
Ausentes gestos, são acções permitidas,
Que não despertam mais do que feridas.
São gumes de facas que rasgam
Desde a pele à alma palavras proferidas,
Outras atitudes esquecidas,
Outras marcas que em nós fincam
E marcam sem se dar conta
E que com o sarar dos cortes
Se tornam sombra que a mente monta,
Criando espessas muralhas e fortes
Intransponíveis e, por outras sortes,
Nos mal fortunam a quem se apronta
A nos tornar gente que a outros conforte.

Evitar despedidas é um bem preciso.
Nelas se aplica a maior fraqueza,
Do nosso lamento mais conciso
Seja o choro ou apatia ou riso
Ou a imobilidade que é natureza
De quando nos damos ao improviso
Da surpresa da angústia desse adeus.
Na medida em que me aflito
Enquanto racional convicto
Às despedidas e momentos seus
Emocionalmente tudo evito.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Adivinhação

Não receio que me seja descoberto
Por intuito ou negação
Sobre tudo ao que me afecto
Generalizado ou em concreto
Ou que me enamore pela razão

Sou um espelho do chão ao tecto
E mais um texto descrito p’la mão
Preso a uma caneta que aperto
E desenho firme em traço certo
Com riscos provenientes do coração

Será sempre sangue vermelho preto
Aclarado de amargo em verde limão
Ao doce que porventura não desperto
Adoço sempre trazendo por perto
Cada uma da vossa apreciação

Já aos medos sou mais discreto
Evitando sempre a comparação
Que entre o errado e o correcto
Fecho e tranco a cara ao incerto
Com toda a intenção.

Bruno Torrão

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nem aos que partem, mas aos que ficam

Num aceno o sorriso nos lábios
A melancolia no olhar
A dicotomia que os próprios sábios
Desconhecem em identificar

A pertença a algo que parte
E a perda que fica no seu lugar
Permitindo que tudo, ao quebrar-te
O sonho, se desvaneça no acenar...

Num aceno com os lábios sorrindo
E os olhos chorando
A tua pertença se vai indo
A tua alma partindo e tu ficando

E o que fica naquilo que partiu
É já parte de ti que te quebraste
Desfeito no aceno que se viu
Quando, ao vento, ao tudo acenaste

Naquele aceno com lábios sorrindo
E os olhos já chorando,
E onde não escolheste, nem distinguindo,
O que mantinhas ou largavas, acenando.

Bruno Torrão

Estátua ao emigrante português - Santa Apolónia, Lisboa

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Dicotómico

Dicotómico, seguramente me defino!
Todo o meu ser, em segurança, o é.
Se na solidão me assombro e deprimo
À mesma renego e lhe finco o pé.

A falta de quem me rodeia é penumbra
Sobre a qual o meu corpo se desgasta
E a minha alma negra se sucumba,
Em esperança que à própria resgata,

Neste ébrio ambiente em que efuso
Me deixo emergir à tona da alma gasta.
Submerjo o corpo fraco em parafuso
Em eminente confusão que julgo nefasta

E só desta feita me adubo às ideias,
Que em permanente guerra me ferem,
Enquanto que do rasgar do corpo, das veias,
Lhes aproveito o sangue-tinta em que escrevem

As guerras que ganho, apenas essas!
Que dos falhados poucas histórias rezam.
Sei no entanto, que se juntarem as peças,
Saber-se-á que todos os homens se auto-desprezam.

Bruno Torrão

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Asas

Poderia eu ter as asas presas
E esperar que da alma o fogo ateasse
Em vontade de libertação, essas certezas,
Combustão que ferozmente queimasse

As amarras de corda que não vê ninguém,
Mas não, não permito que a alma se imole
Sem razões de como sustentar a quem
Por razões de outrém se autocontrole.

Se às aves foram dadas asas de liberdade,
Que artefacto nos foi atribuído, então?
Se sabemos que ao amor temos obrigatoriedade
Resta-nos livre, apenas, a própria razão?

Bruno Torrão